sexta-feira, 5 de novembro de 2010

receptáculo

Acordou de uma bebedeira. Mais uma amnésia alcoólica. Merda. Onde estava? Era um quarto de hotel. Pela janela, reconheceu os grafites, a fauna humana e a sujeira hipster da rua Augusta. Ao tentar recuperar um pouco de dignidade com a água da pia na cara, tomou um susto ao ver um corte tosco, ainda em processo de cicatrização, dando a volta na cabeça, logo abaixo da franja. Achou um pininho, desses de caixa de joia de avó, e abriu, como se não ligasse que sua cabeça, da noite para o dia, virou caixa de joia de avó.

Não havia nada. Seu cérebro havia sido removido. O crânio era um recipiente quase vazio agora.

Sem se desesperar com o absurdo, grotesco, horripilante desfecho da noite, questionou-se, com calma de coveiro em dias de chuva: por que eu mantenho as funções motoras se não tenho mais cérebro?, perguntou-se.

AO descer à rua, encontrou outros amigos de porre. Um deles passou pelo mesmo procedimento cirúrgico aparentemente não consentido. Discutiram a respeito das supostas vantagens biológicas que haviam descoberto, mas um terceiro interveio: vocês estào exercendo funções de piloto automático. Vocês mantiveram o lobo parietal, então vejam: ainda conseguem manter sensações...

Ah, cala essa boca, olha aqui, maluco, dá pra servir sopa com minha cabeça e você vem com essa aulinha de biologia!?

Mas é sério. Quando vocês precisarem pensar, ter uma ideia no trabalho, por exemplo, não vão conseguir. Vejam aquela modelo andando. Ela também teve o cérebro removido. Mas vai ter um dia a dia normal.

Hmmm

Ao chegar no trabalho, concluiu todas as tarefas sem o menor problema.

Pediu demissão no dia seguinte.

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