Era uma mesa redonda de festa de casamento das mais inesperadas das mesas redondas de festa de casamento. Do seu lado, Victor Belfort, ainda abalado pela derrota acachapante que acabara de sofrer. "Temi pelo meu queixo, cara. Os médicos estão vendo ainda se ele não virou uma gelatina", desabafa, enquanto convidados do outro lado de mesa tiravam fotos dele sem cerimônia alguma.
Anderson, o homem que o derrotara, chegou em seguida, sem camisa, exibindo músculos e tatuagens, posando para fotos e, surpreendentemente, sorrindo e integrando-se à conversa. Apesar de rivais no octógono, eram grandes amigos. Após a tietagem, relaxam, fazem piadas com você, tiram fotos.
Sobre a mesa, o menu da festa, totalmente estilizado com motivos de Super Mario. A Ellen é fã, queria um casamento de videogame. E foi uma diversão só. Além da luta em que o próprio noivo levou uma surra, o grande salão imitando um cassino tinha muitas outras opções de lazer. No menu, podia-se ler algumas delas: "mande torpedos bêbados e veja no que dá!", entre outras.
Uma pena, não deu para aproveitar tudo. Era hora de ir embora. Os leitores da revista escolhidos para participar dessa folia de joysticks e MMA precisavam partir, e você, embora amigo dos famosos, tinha que acompanhá-los.
A vida é uma festa, a vida é trabalho e, nos bons momentos, é tudo junto.
Tudo junto.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
UFC do buquê
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
casas
Sonho muito com casas. Muitos sonhos se passam em casas. As que existiram na minha vida, como o Cambaco, em Tatuí, e as que ainda existem como as antigas dos meus avós em São Sebastião. Raramente sonho com a casa onde moro ou as onde morei. Quando elas surgem, estão reformadas, deformadas. E sonho, com uma frequência discreta, que cruza épocas na minha vida, com casas criadas no subconsciente. Todas labirínticas e enormes.
Há a mansão estranha adaptada à topografia de morro de videogame, toda cercada por um filete de rio que, se não serviria na função primordial de defesa de castelo, era um divertido corredor para pessoas e patos de borracha circularem entre os cômodos.
Há o monumental e lúgubre palacete cafona do bairro, cheio de salas escuras e uma piscina vazia de 50 metros de profundidade. Apesar do aspecto cinzento, sempre tem alguma celebração lá. Um aniversário, cheio de balões coloridos, crianças correndo, pipoca, futebol de sabão (às vezes na piscina gigante) e carrossel.
Há algumas outras, inclusive uma vila inteira de criaturas pequenas e simpáticas, mistura de Smurfs e um videogame antigo, Lemmings, que eu visitava muito na infância. Eu era grande.
E há a suntuosa casa de praia comumente alugada pelos amigos no verão. Sempre à espera do fim da reforma, com lascas de cimento e cômodos inteiros sem acabamento. Mas, na última visita, ela estava impecável, do ponto de vista de engenharia (quanto a arquitetura e decoração, outra história). A casa estava pronta. E a festa, começando.
O presidente de facto e o sem-teto

Os nossos amigos seguiram seu caminho sinuoso pelas multidões sobre a ponte. Essa estrutura, que existia há 600 anos e fora uma via pública barulhenta e populosa durante todo esse tempo, era um caso curioso, pois uma fileira bem compacta de armazéns e lojas, com os alojamentos da família na parte de cima, estendia-se ao longo de seus dois lados, de uma margem do rio à outra. A Ponte era uma espécie de cidade para si mesma: tinha a sua estalagem, suas cervejarias, suas padarias, suas lojas de miudezas, seus mercados de alimentos, suas indústrias manufatureiras e até sua igreja.
Olhava as duas vizinhas por ela ligadas - Londres e Southwark - como sendo bastante boas como subúrbios, mas do contrário não particularmente importantes. Era uma corporação fechada, por assim dizer, uma cidade estreita, de uma única rua, com um terço de quilômetro de comprimento. Sua população não passava de uma população de vila, e todo mundo ali conhecia todos seus concidadãos intimamente, e conhecera seus pais e mães antes deles - e ainda todos os seus pequenos casos familiares.
Tinha a sua aristocracia, claro - suas excelentes famílias antigas de açougueiros, padeiros e não sei o que mais, que vinham ocupando os mesmos antigos recintos por 500 ou 600 anos e conheciam a grande história da Ponte desde o início, e todas as suas estranhas lendas; e sempre tratavam comversas da ponte, refletiam pensamentos da Ponte, e mentiam de um modo longo, uniforme, direto, substancial, típico da Ponte. Era exatamente o tipo de população para ser estreita, ignorante e pretensiosa. As crianças nasciam na Ponte, eram ali criadas, cresciam, viviam até a velhice e finalmente morriam sem jamais pisarem em nenhuma outra parte do mundo a não ser na Ponte de Londres.
* * *
- Black Bess, a sua rapariga, ainda está conosco, mas ausente na marcha para o leste. Uma moça excelente, de boas maneiras e conduta ordeira, ninguém jamais a viu bêbada mais de quatro dias na semana.
(...)
- Mais algum de nossos amigos teve destino duro?
- Alguns sim. Particularmente os novatos...como pequenos agricultores que se tornaram inúteis e famintos no mundo porque suas fazendas lhes foram tiradas para serem transformadas em pastos de ovelhas.
Trechos do leve, divertido e ironicamente atual O Príncipe e o Mendigo, de Mark Twain
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Selvagens

"Eu queria conseguir umas batinas", sugeri. "Podem ser úteis em Las Vegas."
Mas nenhuma loja de trajes religiosos estava aberta. Também não estávamos dispostos a arrombar uma igreja. "ah, deixa pra lá", falou meu advogado. "É bom lembrar que certos policiais são católicos muito carolas. Dá pra imaginar o que esses filhos-da-puta fariam se nos pegassem totalmente drogados e bêbados, usando batinas roubadas? Jesus, a gente ia ser castrado!"
"Tem razão", concordei. "E, pelo amor de Jesus Cristo, larga esse cachimbo quando a gente parar no sinal. Não esquece que estamos num conversível".
Meu advogado balançou a cabeça. "A gente precisa de um narguilé bem grande. Pra deixar aqui embaixo, fora de vista. Se alguém vir, vai achar que estamos usando oxigênio."
* * *
Mas nada na atmosfera do North Star indicava uma necessidade de ficar alerta. A garçonete possuía certa hostilidade passiva, mas com isso eu estava acostumado. Era uma mulher grande. Não gorda, mas larga em todos os sentidos, com braços compridos e musculosos e uma mandíbula de gente briguenta. Uma caricatura destruída de Jane Russell: cabeçona com cabelos escuros, batom borrado e peitos enormes que devem ter sido espetaculares uns vinte anos atrás, quando ela foi a Mama dos Hell's Angels em Berdoo... Mas agora estavam embalados num sutiã elástico gigante e cor-de-rosa, que por baixo do seu uniforme de raiom branco e suado parecia uma atadura.
Devia ser casada, mas eu não estava com vontade de especular. Naquela noite, tudo que eu queria dela era uma xícara de café preto e um hambúrguer de 29 centavos com picles e cebola. Nenhum aborrecimento, nenhuma conversa - apenas um lugar para descansar e recuperar forças. Eu nem estava com fome.
Meu advogado não tinha um jornal ou qualquer outra coisa para prender a atenção. Assim, para espantar o tédio, se concentrou na garçonete. Ela anotava nossos pedidos como um robô quando meu advogado destruiu sua pose exigindo "dois copos de água gelada - com gelo".
Foda-se, pensei. Eu estava lendo as tirinhas.
* * *
... Por que se dar ao trabalho de ler jornais, se isso é tudo que têm a oferecer? Agnew tinha razão. A imprensa é uma gangue de covardes impiedosos. Jornalismo não é uma profissão, não é nem mesmo um ofício. É uma saída barata para vagabundos e desajustados - uma porta falsa que leva à parte dos fundos da vida, um buraquinho imundo e cheio de mijo, fechado com tábuas pelo inspetor de segurança, mas fundo o bastante para comportar um bêbado deitado que fica olhando para a calçada se masturbando como um chimpanzé numa jaula de zoológico.
Trechos de Medo e Delírio em Las Vegas, o relato chapado de Hunther S. Thompson na decadência da sociedade americana pós-sonho hippie. As ilustrações igualmente insanas do livro são de Ralph Steadman
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
no nada

"Olhei para o lado da balsa onde anotava os dias e contei oito riscos. Mas me lembrei de que não tinha anotado o daquele dia. Marquei-o com as chaves, convencido de que seria o último, e senti desespero e raiva ante a certeza de que era mais difícil morrer que continuar vivendo. Nessa manhã tinha decidido entre a vida e morte. Escolhera a morte e, entretanto, continuava vivo, com o pedaço de remo na mão, disposto a continuar lutando pela vida. A continuar lutando pela única coisa que já não importava mais."
"É possível se passar um ano no mar, mas há um dia em que é impossível suportar uma hora mais."
Relato de um Náufrago - Gabriel García Márquez sem firula, seco como sal. Melhor na edição de sebo com ilustrações do Carybé
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
"história de um amor"

Trechos de Carta a D., de André Gorz, uma declaração a sua mulher, Dorine, em carta, em livro, em fim da vida:
"Procurei esse médico quando seu estado de saúde se agravou dramaticamente. Você não conseguia mais se deitar, de tanto que a cabeça a fazia sofrer. Passava a noite em pé, na varanda, ou sentada numa poltrona. Eu queria acreditar que nós tínhamos tudo em comum, mas você estava sozinha na sua aflição."
"Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher. À noite eu vejo, às vezes, a silhueta de um homem que, numa estrada vazia e numa paisagem deserta, anda atrás de um carro fúnebre. Eu sou esse homem."
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
feio mas tá na moda
Do alto de uma falésia, desceu rumo à praia por uma escada íngreme de madeira. Era uma praia estreita de comprimento, mas com uma bela faixa de areia. Seu destino era a caverna semelhante a uma torre no lado direito da praia.
Entrou e começou a subir. As rochas eram todas ornamentadas com grafites de motivos de futebol, com referências a craques e campeonatos do passado. No caminho inverso, atletas altos, de uniforme azul e amarelo, desciam compenetrados. No alto da caverna, pegou o que tinha que pegar, sem saber direito o que era, e desceu de volta.
À noite, sob o galpão onde se realizava a festa do que parecia ser uma colônia de férias, o time dos atletas altos e fortes voltou, agora em grupo. Formaram um corredor no meio do galpão, à espera de seu técnico, que chegou pouco depois. Ele era negro e não era alto como seus discípulos, mas era forte e assustador. O rosto coberto de piercings na sobrancelha, um grande brinco de argola em uma orelha, e dentes enormes. Bradou as palavras de sempre de ordem, união, força, vitória, aos gritos de seus soldados.
Em seguida, o capitão do time, ao que parecia ser, cumprimenta de longe, com um aceno discreto, e inicia o que devia ser um show de demonstração/teste para a próxima leva de calouros do próximo ano. Dois meninos fortes, mas não tão altos como os veteranos, são os primeiros candidatos. Eles se amarram a cordas presas ao teto e a duas grandes portas de metal, que deveriam ser erguidas paralelamente ao solo.
Os jovens apoiam os pés na porta, perpendicularmente ao chão, e tentam começar a andar em direção ao teto com a ajuda da corda. O esforço é visivelmente marcante, com veias saltadas e rostos vermelhos e pingos de suor. Um deles não aguenta, desaba no chão e ali fica, com uma estranha pulsação na testa, um galo que inchava e desinchava, deformando seu rosto.
A cena chama atenção de todos, os moleques que soltavam gritos de provocação ao time de jovens muito mais bem nutridos que eles se calam. Um dos jogadores vai checar o que houve, quando o candidato fracassado, de repente, se transforma em um grande lobo, o suficiente para causar tumulto e acabar com a festa.
Correu, perseguiu, uivou, mas não atacou ninguém. Você consegue se desvencilhar quando ele vem em sua direção, mas o deixa chegar perto a ponto de ameaçar: não acabou aqui, guardei seu rosto, volto para te buscar.
Mais tarde, na internet, cria coragem para provocá-lo de volta: então vem.
domingo, 21 de novembro de 2010
oi de novo
Trechos de Adeus às Armas, de Ernest Hemingway. soco no coração com estilhaços de granada e paixão interrompida.
Terminadas as tarefas, sentávamo-nas na sacada do meu quarto. Eu ia para a cama e, depois que todos já estavam dormindo e tínhamos certeza de que ninguém nos viria interromper, Cat se aninhava comigo. Eu gostava de desmanchar seus cabelos; ela sentava-se na cama e ficava imóvel; então, de repente, me beijava e eu tirava-lhe os grampos e os espalhava sobre o lençol. Eu pararia para observá-la, e ela não se mexeria até eu desprender os dois últimos grampos, quando os cabelos ficariam inteiramente soltos. A seguir, enfiava a cabeça por entre eles, e ela também, e ficávamos como se dentro de uma tenda, ou como se estivéssemos por trás de uma cachoeira.
* * *
- Sim - disse eu. - O estômago não pode ganhar uma guerra, mas pode perdê-la.
- Não falo em perder. Não concordo com o que dizem por aí. O que fizemos neste verão não foi inútil.
Calei-me. Eu sempre me embaraçava com as palavras sagrado, glorioso e inútil. Nós as tínhamos escutado muitas vezes, de longe, debaixo da chuva, quando só as palavras mais gritadas eram ouvidas, e as tínhamos lido em proclamas pregados nas paredes, sobre outros proclamas. Mas não víamos nada sagrado em torno, e as coisas gloriosas não mostravam glória nenhuma. Os sacrifícios seriam como os dos matadouros de Chicago, só que lá fazem outra coisa com a carne que, aqui, enterramos. Havia muitas palavras que já não suportávamos - e por fim só os nomes dos lugares tinham dignidade. Certos números, nomes e datas eram tudo o que poderíamos pronunciar com alguma significação. Palavras abstratas, como glória, honra, coragem, sagrado, eram obscenas, ao lado dos nomes concretos das cidades e rios, dos números dos regimentos e das datas.
* * *
Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos - indiferentemente. Se vocês não estão em nenhuma dessas categorias, o mundo vai matar vocês, do mesmo modo. Apenas não terá pressa em fazer isso.
* * *
O garçom saiu e fechou a porta. Voltei aos jornais e à guerra nos jornais, enquanto ia lentamente despejando a soda no uísque. Ia ter de dizer a eles para não trazerem o uísque já com o gelo, no copo, pois só assim dá para ver quanto uísque é servido, e também o copo não estará cheio demais para se misturar a soda. Era o mais sensato a fazer. O bom uísque é das partes agradáveis da vida.
- Em que está pensando, querido?
- Em uísque.
- E o que pensa sobre o uísque?
- Em como é bom.
- Sei - murmurou Catherine, fazendo uma careta.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
receptáculo
Acordou de uma bebedeira. Mais uma amnésia alcoólica. Merda. Onde estava? Era um quarto de hotel. Pela janela, reconheceu os grafites, a fauna humana e a sujeira hipster da rua Augusta. Ao tentar recuperar um pouco de dignidade com a água da pia na cara, tomou um susto ao ver um corte tosco, ainda em processo de cicatrização, dando a volta na cabeça, logo abaixo da franja. Achou um pininho, desses de caixa de joia de avó, e abriu, como se não ligasse que sua cabeça, da noite para o dia, virou caixa de joia de avó.
Não havia nada. Seu cérebro havia sido removido. O crânio era um recipiente quase vazio agora.
Sem se desesperar com o absurdo, grotesco, horripilante desfecho da noite, questionou-se, com calma de coveiro em dias de chuva: por que eu mantenho as funções motoras se não tenho mais cérebro?, perguntou-se.
AO descer à rua, encontrou outros amigos de porre. Um deles passou pelo mesmo procedimento cirúrgico aparentemente não consentido. Discutiram a respeito das supostas vantagens biológicas que haviam descoberto, mas um terceiro interveio: vocês estào exercendo funções de piloto automático. Vocês mantiveram o lobo parietal, então vejam: ainda conseguem manter sensações...
Ah, cala essa boca, olha aqui, maluco, dá pra servir sopa com minha cabeça e você vem com essa aulinha de biologia!?
Mas é sério. Quando vocês precisarem pensar, ter uma ideia no trabalho, por exemplo, não vão conseguir. Vejam aquela modelo andando. Ela também teve o cérebro removido. Mas vai ter um dia a dia normal.
Hmmm
Ao chegar no trabalho, concluiu todas as tarefas sem o menor problema.
Pediu demissão no dia seguinte.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
a mulher do próximo passo

Ele corria, sem esforço, num dia ensolarado, pela avenida. Larga, 4 pistas de cada lado, toda dedicada aos atletas de fim de semana. Os prédios dos anos 60 e seus oito, dez andares, sobre árvores verdes e gordas eram testemunhas de sua visão hipnótica: uma mulher alta, longos cabelos ondulados cor de mel, corria à sua frente vestindo apenas uma camiseta de corrida e tênis. Nua, na prática.
A visão daquela bunda empinada, linda, pornograficamente romântica, era a tentação no auge do auge. De repente, sentiu que ela, a bunda, os lábios, o chamavam. Estava bêbado, óbvio. Mas não, por incrível que parecesse estava praticando esportes, brincando de ser saudável, suando um suor sem o cheiro acre de véspera eufórica.
Acelerou o passo e a alcançou. Reconheceu-a, era uma nova namorada, modelo nas horas vagas, um palmo mais alta que ele. Linda com aquele curioso cabelo diferente do resto. Correram, felizes no trote, pegaram um desvio até a casa dos avós dele. Haveria uma festa. Vamos ajudar na preparação e pegar um cantinho para nos agarrar, sugeriu.
Ela adorou. Ao chegarem, um vai-e-vem de pessoas com bandejas, cadeiras, copos, pratos. Subiram as escadas da sala de jantar que na infância só lhe eram permitidas em dia de festa. No meio do caminho, ele avistou uma tia-bisavó que não via havia muito. Frágil, pequena, viúva. Descendo passo a passo os degraus. Parou para cumprimentá-la e lhe dar passagem. A namorada, no degrau inferior, queixo encostado em seu ombro, mãos dadas perpendicularmente aos corpos.
Ao passar por ele, a tia ajustou os sapatos para descer com mais segurança. Sapatilha azul, tipo um calçado social de dançarinas de balé. Para seu espanto, girou 180º o sapato esquerdo, deixando os pés assim: um para frente, outro para trás - uma semicurupira. Sorriu para o jovem casal e desceu, firme, sem precisar de ajuda.
A velhice é torta.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
inner

Era uma garagem subterrânea, semelhante às de shopping. Escura, empoeirada e um balcão com luz amarela baixa, mostrando aos poucos pneus empilhados e uma tevezinha antiga, 14 polegadas, pendurada em um canto alto da parede. Surpreendeu-se ao reconhecê-la na tela, participando de uma gingana de perguntas e respostas ou algo do tipo no programa do Gugu. 'Caramba, para quem disse que não se sentia bem em frente às câmeras ela está ótima. E é o terceiro programa em que ela vai em 3 semanas!', mordeu-se, inseguro.
Saiu correndo pela garagem, que era repleta de elevadores rústicos para os pedestres passarem sobre as vias dedicadas exclusivamente aos milhares de carros que por lá passavam diariamente. Eram desses elevadores de obra, cetaligado?
Começou a correr. Não a correr desesperadamente ou fugindo de algo ou querendo chegar a algo. Correr por correr porque sentia-se bem ao correr como se fosse uma criatura que não andasse mas corresse. No entanto, o trote sincopado começava a ser interferido pelo fluxo cada vez maior de transeuntes na mão contrária. Marchas de soldados, policiais, atletas, sempre na direção contrária.
O caminho que levava os pedestres para fora da garagem virava uma enorme estrutura metálica de pontes estreitas, suspensas e interligadas por escadas. Mais ou menos uma espiral cúbica de escadas de incêndio de grandes edifícios.
Foi numa dessas escadas que deu de cara com um antigo colega de faculdade, de quem não era muito amigo mas alguém longe de ser um desafeto. Cumprimentaram-se, ofegantes, ambos praticando a corridinha das escadas, mas em sentidos contrários. Sentiu-se diminuído quando foi perguntado: `Desculpa, não lembro seu nome...Não é...` `Não, esse é meu apelido`, cortou, sem graça. Despediram-se e ele voltou a se locomover.
Encontrou uma escada que subia à direita para uma casa que lhe era familiar - e que estava com sons de gente feliz. Subiu e deu de cara com uma colega que não via havia alguns meses vomitando sobre o irmão dele. Desses jatos beges, como se a boca dela tivesse sido trocada por uma mangueira de bombeiro. Ao ver a cena, ainda eufórico com a corrida, dirigiu-se à cozinha, onde uma empregada lhe apresentou diversos tipos de balde - que ela não chamava de 'balde`, por ser de algum lugar do Sul, e que não pareciam ser o que para ele eram baldes. Mas serviam para o propósito de encher de água e limpar o irmão humilhado pela tequila rebelde do estômago alheio.
Mandou que tirasse a camisa e jogou cuidadosamente água sobre o rosto dele até que estivesse suficientemente menos sujo. Feito o serviço, sentou-se e tratou de tentar se divertir com aquela reunião única de pessoas que até então não se conheciam. O som que tocava era um cd gravado por ele mesmo havia uns 2 ou 3 anos, embora não se lembrasse de ter colocado algo tão pesado com o Rob Zombie que explodia nas caixas de som. A dona da casa, ainda de luto pela morte do pai, estava a um canto, visivelmente forçada a tentar se divertir. Não queria estar ali. Ao lado dele, o colega surdo falou algo que ninguém entendera - ou que não era para ser entendido, o que foi comprovado quando ele forçara o surdo a repetir claramente o que dissera, para que todos ouvissem, o que foi só mais um momento constrangedor. Inocentemente, o surdo tentara se comunicar com os lábios com um amigo do outro lado da sala, fazendo uma fofoca sobre o antigo negócio do pai de outro ali presente, que havia falido e deixado a família endividada. Ninguém precisava ouvir isso.
E foi justamente nesse anticlímax que ele finalmente reparou que ela estava lá, sentada, divertindo-se, mexendo na mão vestida com uma luva de couro que deixava os dedos expostos. O jeito boneca roqueira dela de sempre. Só não era de sempre a proximidade que ela estava de um colega de trabalho dele, que rapidamente a envolveu com os braços apoiados no cotovelo, passando por trás da cintura e pegando a mão dela.
Foi o suficiente para ele se levantar. Quando se beijaram, a festa ainda continuava quase que normalmente, mesmo com a reação dele. `Vocês não iam me dizer? E precisava disso na minha frente?` Em meio a respostas evasivas, acabou quebrando na mão o copo americano vazio que segurava. Com o punho sangrando, saiu pela porta da frente, onde não havia mais as escadas metálicas, mas bucólicas ruas residenciais. Seu pai, preocupado, viera atrás, e lhe disse: 'vai pra casa e começa uma vida nova às 8h30`. Olhou para trás e viu, lá em cima, o irmão com uma espingarda apontada para os dois. Teve tempo apenas para dizer ao pai que se protegesse e saiu correndo.
* * *
Atendeu o telefone, pendurado na parede. Discutiu, gritou, xingou. Ao desligar o aparelho, esmurrou-o na parede até não sobrar uma peça intacta. O vizinho, ou algo semelhante a isso, soltava berros abafados pela parede. Hank xingou de volta, saiu chutando a porta.
A escada dava para um sótão trancado, de onde o tal vizinho reclamara do barulho do telefonema violento. Sujeito grande, costeletas selvagens, possivelmente um esquimó albino, escondia-se naquele buraco com uma velha misteriosa e uma pessoa quieta. Ao parar de xingar Hank, voltou-se para a velha, que conseguira uma presa em sua arapuca. Uma galinha lutava desesperada para soltar a cabeça das tábuas de madeira que faziam as vezes de parede e portão para eles, e por através de suas frestas entrava a pouquíssima luz de que essas estranhas pessoas dispunham (talvez era o necessário para eles, seu aspecto indicava que sim).
`Temos jantar para hoje`, disse a velha ao quebrar o pescoço da ave.
* * *
De volta ao trabalho, narrou aos amigos a cena que tivera que presenciar na véspera. "Talvez você tenha se exaltado à toa. Eles estavam encenando, é possível por isso, isso e isso", ouviu. "Mas eles fizeram aquilo, aquilo e aquilo", retrucou. "Mas tudo se encaixa. Você pode estar errado."
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
o futuro dos jornais
Trecho do gigantesco e rebuscado e filosoficamente arrastado A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Aqui, ele escreve sobre consciência ecológica e o papel econômico que o jornal, mais especificamente do papel-jornal, poderia ter. O ano? 1924.
"Em consequência de seu caráter complacente, o bom Hans Castorp estava predestinado a receber as confidências de vários dos seus companheiros que se achavam possuídos de alguma ideia fica e sofriam por não encontrar na maioria leviana dos pensionistas pessoas que os quisessem ouvir. Um antigo escultor, natural de uma província da Áustria, homem de certa idade, com um bigode branco, nariz adunco e olhos azuis, concebera um projeto político-financeiro, que caligrafara, sublinhando os trechos decisivos com pinceladas de tinta nanquim. Esse projeto tinha o seguinte objetivo: cada assinante de jornal deveria ser obrigado a entregar no primeiro dia de cada mês uma quantidade de papel de jornal velho que correspondesse a 40 gramas por dia. Isso importaria anualmente em cerca de 1400 gramas, e em 20 anos em nada menos que 288 quilos, os quais, à base de um preço de 20 pfennings por quilo, representariam um valor de 57,60 marcos. Cinco milhões de assinantes - assim prosseguia o memorando - entregariam, portanto, em vinte anos a soma formidável de 288 milhões de marcos, dois terços da qual poderiam ser deduzidos das assinaturas, ao passo que o resto, aproximadamente cem milhões de marcos, seriam aproveitados para fins humanitários, como, por exemplo, o financiamento de sanatórios populares para tísicos, subvenções para talentos, pobres etc. O plano estava elaborado em todos os pormenores. Não, tinha até mesmo uma coluna que permitia ao funcionário encarregado de recolher mensalmente o papel verificar a quantidade que faltava pela altura da pilha. Havia formulários pendurados para servir de recibo. Era um projeto sólido e fundado sob todos os aspectos. O gesto insensato e a destruição de papel jornal, que gente mal-avisada ainda desperdiçava em cloacas ou fogões, constituía alta traição às nossas florestas em um golpe contra a economia nacional. Poupar papel, guardar papel, significaria conservar e economizar celulose, árvores, máquinas, que a fabricação de pasta mecânica e de papel desgastava, como seriam também menos exigidos o capital e o material humano. Acrescia a isso o fato de o papel de jornal velho adquirir facilmente o quádruplo valor pela transformação em papel de embrulho ou em papelão, de maneira que seria capaz de se converter num fator econômico de vasta importância e em fundamento de rendosos impostos estaduais ou municipais, ao passo que os leitores de jornais veriam as suas contrubuições aliviadas. Numa palavra, o projeto era bom, era, em realidade, inatacável, e se no entanto tinha algo de sinistra ociosidade e mesmo de obscura tolice, era somente por causa do fanatismo excêntrico com que o ex-artista defendia e apregoava uma ideia econômica, exclusivamente esta e mais nenhuma, apesar de levá-la, evidentemente, tão pouco a sério no fundo do seu coração que não fazia a menor tentativa para realizá-la..."
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Ragtime, de E.L. Doctorow

Baita livro de bolso pra comprar. R$10 bem investidos numa narrativa sincopada entre frases longas e curtas (daí o nome, alusão ao estilo musical) que mostra, sob diversos aspectos e pontos de vista, a formação cultural dos Estados Unidos. Nada academicista. Jazz, anarquia e ilusionismo.
Sexo & casamento:
"O casamento parecia desabrochar com suas prolongadas ausências. Ao jantar, na véspera da partida, o punho da manga de Mamãe atirou ao chão uma colher e ela corou. Quando toda a casa estava adormecida, ele entrou no quarto da mulher, totalmente escuro, e foi solene e atencioso como cabia à ocasião. Mamãe fechou os olhos e levou a mão aos ouvidos. O suor do queixo de Papai caiu-lhe nos seios. Estremeceu, pensando: No entanto, sei que são estes os anos felizes. À nossa frente amontoam-se grandes desastres."
Gula:
"O augusto Pierpont Morgan consumia rotineiramente jantares de sete, oito pratos. Ao café-da-manhã comia bife, costeleta de porco, ovos, panquecas, peixe cozido, pãezinhos com manteiga, frutas secas e creme. O consumo de alimento era o sacramento do sucesso. O homem que ostentava um ventre volumoso encontrava-se no ápice da saúde. As mulheres internavam-se em hospitais onde morriam de ruptura da bexiga, falência do pulmão, coração sobrecarregado e meningite da medula espinhal. Havia muito movimento rumo às fontes sulfurosas, onde o purgativo era apreciado como um incentivo ao apetite. Toda a América era um grande arroto."
Raças:
"Mas o plano geral é o que permite aos taxonomistas classificar os mamíferos como tais. E dentro de uma espécie - a humana, por exemplo - as regras da natureza operam de modo que nossas diferenças individuais baseiam-se na nossa similaridade. Assim, a individualização pode ser comparada a uma pirâmide, no sentido de que só é alcançada graças à colocação da pedra mais alta.
Ford ponderou. Excetuando-se os judeus, murmurou. Morgan julgou não ter ouvido bem. Perdão, falou. Os judeus, repetiu Ford. São diferentes de todas as outras pessoas que eu conheço. E lá se vai sua teoria à merda. Sorriu."
Amizade infantil & diferenças sociais:
"Ela tinha pés pequenos, suas mãos morenas eram miúdas. Deixava marcas na areia de uma corredora de ruas, escaladora de sombrias escadas; sua pegada era uma fuga aos terrores dos becos e ao terrível estrondo das latas de lixo. Ela fizera as necessidades em privadas de madeira, por detrás dos cortiços. A cauda de roedores se enroscara em seus tornozelos. Sabia costurar à máquina e observava cães copulando, prostitutas recebendo fregueses nos corredores, bêbados urinando entre traves de madeira dos carrinhos de mão. Ele nunca passara sem uma refeição. Nunca sentira frio à noite. Corria com a mente. Corria em direção a alguma coisa. Era livre de medo e ignorava que houvesse no mundo seres menos curiosos que ele a respeito do universo. Via através dos objetos, observava as cores que as pessoas produziam e nunca se surpreendia com uma coincidência. Um planeta azul e verde movimentava-se nas suas pupilas."
quinta-feira, 17 de junho de 2010
temporada de caça
O destino era a Patagônia, a companhia, um livro. Mas o pai se ofereceu para acompanhá-lo. Foram juntos ao fim do mundo, alugaram um sobrado que lembrava a antiga casa dos avós. Por lá, coincidentemente, encontraram antigos amigos de colégio, que acabaram se hospedando também na casa, para repartir os gastos.
(...)
Já era o último dia. Da janela, só se via o movimento lânguido daquelas criaturinhas armando uma emboscada. Jacarés, dezenas deles apontados para entrar na casa. Subiu desesperado os lances de escada, avisou o pai, que prontamente acelerou o processo de fazer as malas, e alertou os amigos. Porém, eles não deram ouvidos, disseram que era mais uma paranoia, que não iriam mudar seus programas `pelos seus fricotes mais uma vez`. Pois bem, malas fechadas, sai logo, com cuidado, sorrateiro.
Conseguiram deixar a casa antes de os animais selvagens acabarem com tudo. Fizeram a coisa certa.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Gisele no país do espelho
No muro baixo branco de tijolos da antiga casa da avó, quadros, mantidos pelos tios herdeiros, lembram a opulência que o lugar tinha em outros tempos. A fotografia do velório de um alto membro da seleção de futebol, realizado no jardim, atestava como a residência era movimentada - embora enaltecesse algumas particularidades de decoração e paisagismo que não agradavam aos atuais donos.
`Olha essas paredes, essas plantas. Era tudo muito largado, se me permite a sinceridade`, dizia a nora e proprietária.
A visita se estendeu ao vizinho mais rico ao lado. No jardim, amigos pobres vivem amontoados, deslizando feito filhotes de porcos recém-nascidos sobre uma lona. A lona, por sua vez, era semelhante a uma vela de catamarã. Não, na verdade era uma vela.
Entre aquelas criaturas sujas e não mais dignas, havia um bebê sem olhos, cujas cavidades eram grossas, mas apesar do aspecto repugnante eram limpas e secas. O único traço de humanidade naquele rostinho deformado era uma pequena língua, tímida e pateticamente para fora, 'na pontinha'. O bebê era cuidado por um suposto irmão, gordo e atarracado, sem pescoço, com um semblante que seria divertido não fosse aquela situação tão embaraçosa. Você não tem coragem de perguntar nem se aquele bebê está vivo ou não. Eram todos tão alucinados que não espantaria um deles cuidar de um ser em decomposição.
Com muita dificuldade para superar o baixo atrito da lona sobre a grama e os arrepiantes contatos físicos daqueles que outrora eram amigos interessantes e vivazes, você consegue deixar o jardim e caminhar pelos lados da mansão até deixar o nobre bairro.
De volta ao trabalho, é interessante reparar, após tantos anos, como são felizardos os funcionários da empresa, que podem almoçar em um grande chalé de madeira encravado na entrada do bosque, servindo-se de diversas opções de pratos do chef, grelhados, supersaladas, cozinha brasileira, massas e pratos saudáveis. Seus pais sentiriam orgulho e tranquilidade ao ver que você é bem tratado na firma. Mas, sem fome, abre mão de tantas opções e escolhe uma gelatina com leite condensado, densa, branca e fosca. Tão densa que ela não escapa do prato quando o motorista do refeitório - de volta àquele insuportável ônibus escolar sob o pavimento - resolve transportar o enorme chalé bem na hora do almoço.
Enquanto nhoques e bifes a rolê pulam dos pratos para as camisas dos colegas, você é jogado para cima de uma cadeira encostada, e não consegue vencer a força gravitacional sem a ajuda de um amigo. Mais uma vez a gravidade atrapalhando, mas dessa vez os outros ajudam, não atrapalham.
Ao pesar a gelatina grudenta, um colega o aborda: "O que você estava fazendo com a Gisele ontem na rua!?"
Você gela. "Que Gisele?" Achando que ele se referia a uma conhecida deveras feia.
"Sabe muito bem que Gisele..." E olha, impaciente, aguardando o estalo.
"Ah, aquela, a Bundchen! Pois é, tive que ciceronear a moça, mas não deu muito certo"
"Por quê?"
"Porque ela é safa. E no sentido nada intessante. Nem para dar em cima rolava, né. Ia pegar mal"
"Pode crer."