quinta-feira, 17 de junho de 2010

temporada de caça

O destino era a Patagônia, a companhia, um livro. Mas o pai se ofereceu para acompanhá-lo. Foram juntos ao fim do mundo, alugaram um sobrado que lembrava a antiga casa dos avós. Por lá, coincidentemente, encontraram antigos amigos de colégio, que acabaram se hospedando também na casa, para repartir os gastos.

(...)

Já era o último dia. Da janela, só se via o movimento lânguido daquelas criaturinhas armando uma emboscada. Jacarés, dezenas deles apontados para entrar na casa. Subiu desesperado os lances de escada, avisou o pai, que prontamente acelerou o processo de fazer as malas, e alertou os amigos. Porém, eles não deram ouvidos, disseram que era mais uma paranoia, que não iriam mudar seus programas `pelos seus fricotes mais uma vez`. Pois bem, malas fechadas, sai logo, com cuidado, sorrateiro.

Conseguiram deixar a casa antes de os animais selvagens acabarem com tudo. Fizeram a coisa certa.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Gisele no país do espelho

No muro baixo branco de tijolos da antiga casa da avó, quadros, mantidos pelos tios herdeiros, lembram a opulência que o lugar tinha em outros tempos. A fotografia do velório de um alto membro da seleção de futebol, realizado no jardim, atestava como a residência era movimentada - embora enaltecesse algumas particularidades de decoração e paisagismo que não agradavam aos atuais donos.

`Olha essas paredes, essas plantas. Era tudo muito largado, se me permite a sinceridade`, dizia a nora e proprietária.

A visita se estendeu ao vizinho mais rico ao lado. No jardim, amigos pobres vivem amontoados, deslizando feito filhotes de porcos recém-nascidos sobre uma lona. A lona, por sua vez, era semelhante a uma vela de catamarã. Não, na verdade era uma vela.

Entre aquelas criaturas sujas e não mais dignas, havia um bebê sem olhos, cujas cavidades eram grossas, mas apesar do aspecto repugnante eram limpas e secas. O único traço de humanidade naquele rostinho deformado era uma pequena língua, tímida e pateticamente para fora, 'na pontinha'. O bebê era cuidado por um suposto irmão, gordo e atarracado, sem pescoço, com um semblante que seria divertido não fosse aquela situação tão embaraçosa. Você não tem coragem de perguntar nem se aquele bebê está vivo ou não. Eram todos tão alucinados que não espantaria um deles cuidar de um ser em decomposição.

Com muita dificuldade para superar o baixo atrito da lona sobre a grama e os arrepiantes contatos físicos daqueles que outrora eram amigos interessantes e vivazes, você consegue deixar o jardim e caminhar pelos lados da mansão até deixar o nobre bairro.

De volta ao trabalho, é interessante reparar, após tantos anos, como são felizardos os funcionários da empresa, que podem almoçar em um grande chalé de madeira encravado na entrada do bosque, servindo-se de diversas opções de pratos do chef, grelhados, supersaladas, cozinha brasileira, massas e pratos saudáveis. Seus pais sentiriam orgulho e tranquilidade ao ver que você é bem tratado na firma. Mas, sem fome, abre mão de tantas opções e escolhe uma gelatina com leite condensado, densa, branca e fosca. Tão densa que ela não escapa do prato quando o motorista do refeitório - de volta àquele insuportável ônibus escolar sob o pavimento - resolve transportar o enorme chalé bem na hora do almoço.

Enquanto nhoques e bifes a rolê pulam dos pratos para as camisas dos colegas, você é jogado para cima de uma cadeira encostada, e não consegue vencer a força gravitacional sem a ajuda de um amigo. Mais uma vez a gravidade atrapalhando, mas dessa vez os outros ajudam, não atrapalham.

Ao pesar a gelatina grudenta, um colega o aborda: "O que você estava fazendo com a Gisele ontem na rua!?"
Você gela. "Que Gisele?" Achando que ele se referia a uma conhecida deveras feia.
"Sabe muito bem que Gisele..." E olha, impaciente, aguardando o estalo.
"Ah, aquela, a Bundchen! Pois é, tive que ciceronear a moça, mas não deu muito certo"
"Por quê?"
"Porque ela é safa. E no sentido nada intessante. Nem para dar em cima rolava, né. Ia pegar mal"
"Pode crer."

sábado, 8 de maio de 2010

entropia

Foi lhe dar um beijo. Desses longos, de casais recém-apaixonados, ainda sem os traumas da convivência. Mas o beijo não acabou. Não porque eles não queriam (todo beijo acaba, afinal), mas porque, bizarramente, suas línguas eram uma só.

Não é força de expressão. Tampouco suas línguas deram nó, como os desenhos animados fazem crer. As línguas se fundiram em uma só, eram agora uma única faixa vermelha, que não sabia aonde ia nem de onde vinha. Um fiapo de carne vermelha que não cabia mais em seus corpos.

Angustiado, o casal não conseguiu se desvencilhar, claro, e, balbuciando entre salivadas, não se entendiam mais. Quanto mais desesperados ficavam ao tentar separar as línguas - ou melhor, transformar aquele único órgão em dois, como era antes, supõe-se - mais grudados ficavam.

Até que os lábios se juntaram. E, depois disso, se tornaram um único beiço. Não tinha mais volta. Logo o queixo, nariz, olhos, rosto se colaram. Era como um truque de espelho ou os primórdios dos efeitos digitais (tipo a irresistível textura de metal líquido do Exterminador do Futuro).

Não demorou mais que 30 segundos até que eles se transformassem em um só. E, por um instante, foram isso. Até que ele virou ela e ela virou ele. E não, isso não era bom, muito menos romântico. Porque era literal.

domingo, 21 de março de 2010

abraços pela américa

La Boca, Buenos Aires, novembro 2006


"E então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que não chegava a mais de um metro do chão mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra em seu pulso:
- Quem mandou o relógio foi um tio meu, que mora em Lima - disse.
- E funciona direito? - perguntei.
- Atrasa um pouco - reconheceu."

"Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta."

"Enquanto passava a limpo nomes e endereços e telefones para a agenda nova, eu ia passando a limpo também o entrevero dos tempos e das gentes que acabava de viver, um turbilhão de alegrias e feridas, todas muito, sempre muito, e esse foi um longo duelo entre os mortos que mortos ficaram na zona morta do meu coração, e uma enorme, muito mais enorme celebração dos vivos que acendiam meu sangue e aumentavam meu coração sobrevivido. E não tinha nada de mais, nada de mal, que meu coração tivesse se quebrado, de tão usado."

"Somos todos mortais até o primeiro beijo e o segundo copo."

* * *

Eduardo Galeano, direto, espirituoso e deveras humano em O Livro dos Abraços. Obrigado, pelo presente, Zaizer!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

noites na Louisiana


Era uma festa. Uma casa abandonada, sobrado de madeira, colonial, numa cidade do interior. Noite de verão, muita bebida, Lua amarela. Você está no sofá, já com a consciência em estado profundamente alterado. Repara nas luzes refletidas na parede.

- Cara, esses vultos...Tá vendo?
- Ahã...
- Na parede, se liga... Esse monte de cor...Parecem pessoas...
- Pode crer. Eles têm até uns rostos, olha...
- Caraca, é mesmo! Olha mais de perto...

Os dois já não dão mais bola para o que acontece naquela sala suja, grudenta e suada, que tem num sofá velho o único móvel disponível naquele momento. Estão a poucos centímetros da parede, procurando mais detalhes e, principalmente, de onde vinha aquela iluminação estroboscópica, psicodélica.

De perto, todas as pessoas são sombras na parede. Ao constatarem esse absurdo, vocês perceberam que as imagens se deslocam para debaixo do tapete. E somem.

O garçom maluco surge com sua bandeja cheia de pastilhas coloridas. Ele toma uma. E, na sua frente embasbacada, perde o peso, o volume, a massa, as saliências e reentrâncias do corpo. Não parte do peso, o peso. Ele simplesmente ficou 2D. E foi para a parede, numa excrescência cubista.

Você o segue, aquela imagem disforme verde fluorescente descendo vertiginosamente pelo chão. Levanta o tapete e, no mesmo instante, sente o corpo se comprimir - como se pudesse ser uma bola de papel e de repente virar uma folha plana - e vai parar embaixo daquele tecido bordado de qualquer coisa suja de cerveja. Lá, uma outra festa, na verdade, a pista mais disputada da mesma festa. Você reconhece várias pessoas, em transe, dançando a uma música indecifrável.

Os bombeiros chegam. Você deixa a casa pelo porão, que era onde essa pista insana estava, e vê dezenas de pessoas sendo removidas de maca para fora. Elas estão desacordadas, sim, mas parece haver um cortejo, que não é fúnebre, mas é solene, quase um ritual, do qual os bombeiros fazem parte. Sobem um morro, com ciprestes e pequenos arbustos no topo.

Quando você está chegando lá em cima, vê a euforia dos que desceram, e começa a correr. Delira ao atingir o topo, a vista sublime de um mar queimando. Corre, corre, corre, atira o copo de Coca-Cola para o alto e o vê caindo vagarosamente na grama, sem atingir ninguém, continua correndo, esticando as pernas ao limite, sentindo os músculos no limite, e mesmo assim sem alcançar a parte mais à frente do cortejo. Quando, de repente, tudo fica branco.

Sem entender nada, você se levanta, volta, e retoma a vida. O ano começou.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

putas tristes


"(...) Sin enbargo, también tenía a su lado un catre de soltero con los resortes bien aceitados para lo que le deparara de noche. En una época tuve una cierta tentación por sus costumbres de cazador furtivo, pero la vida me enseñó que es la forma más árida de la soledad, y sentí una gran compasión por él."

"(...) Después me levantó en vilo por los sobacos y me puso encima de ella al modo académico del misionero. El resto lo hizode su cuenta, hasta que me morí solo encima de ella, chapaleando en la sopa de cebollas de sus muslos de potranca."

"Conversamos durante horas de otros amigos vivos y muertos, de libros que nunca debieron ser escritos, de mujeres que nos olvidaron y no podíamos olvidar, de las playas idílicas del paraíso caribe de Tolú - donde el nació - y de los brujos infalibles y las desgracias bíblicas de Aracataca. De todo lo habido y lo debido, sin beber nada, sin respirar apenas y fumando hasta por los codos por miedo de que la vida no nos alcanzara para todo lo que todavía nos faltava por conversar."



Da autobiografia de Gabriel García Márquez, Vivir para Contarla, que ainda teve um instante para alfinetar A Montanha Mágica, livro que já está há quatro anos no criado-mudo, sem chegar ao fim (sim, um dia):

"Lo que todavía no me explico es él éxito atronador de La Montaña Mágica, de Thoman Mann, que requirió la intervención del rector para impedir que pasáramos la noche en vela esperando um beso de Hans Castorp y Clawdia Chauchat."

sábado, 20 de fevereiro de 2010

big brother oceania



comercial do Macintosh, da Apple, tipo um Big Brother de cara fofa e branca



"Debaixo da janela, alguém cantava. Winston espiou para fora, protegido pela cortina de musselina. O sol de junho ainda boiava alto nos céus, e no pátio ensolarado uma mulher monstruosa, sólida como uma pilastra normanda, com formidandos antebraços avermelhados e um avental de aniagem na cintura, caminhava entre uma tina de lavar e um varal, estendendo uma porção de panos quadrados em que Winston reconheceu fraldas. Sempre que não tinha a boca cheia de prendedores, cantava, com poderosa voz de contralto (...)"

"No sexto dia da Semana do Ódio, depois das passeatas, discursos, gritaria, cantoria, bandeiras, cartazes, filmes, esculturas em cera, rufar de tambores e guinchar de clarins, reboar de pés em marcha, ronco de esteiras de tanques, zumbido de aviões no ar, troar dos canhões - depois de seis dias de atividade, quando o grande orgasmo se aproximava trêmulo do clímax e o ódio geral contra a Eurásia se condensara em tamanho delírio que a multidão teria certamente esquartejado com as unhas os dois mil prisioneiros de guerra eurasianos cujo enforcamento público se realizaria no último dia - exatamente nesse momento, fora anunciado que a Oceania não estava em guerra com a Eurásia. Estava em guerra com a Lestásia. A Eurásia era aliada."

"- Faze comigo o que quiseres! - urrou - Há semanas que venho passando fome. Deixa-me morrer de fome. Fuzila-me, enforca-me. Condena-me a vinte e cinco anos. Alguém mais que queres que denuncie? Dize o nome e eu confesso imediatamente. Não me importa quem seja, nem o que faça com ele. Tenho mulher e três filhos. O mais velho ainda não tem seis anos. Podes pegar todos eles e degolá-los na minha frente, que eu olho sem virar a cabeça. Mas a sala 101, não!
- Sala 101."

Trechos de 1984, George Orwell


* * *
Pedras nos rins + este livro + GTA IV fizeram um bem danado para a perversidade dos meus sonhos nesse verão

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

no cinema

439 - cólica menstrual
440 - cólica renal (e no dia de Natal?)
441 - ter que abrir a carteira de novo pra mostrar a carteirinha e provar que é estudante na hora de entrar no cinema (mesmo a carteirinha sendo falsificada)
442 - cadeira muito na frente no cinema
443 - cadeira muito atrás no cinema
444 - um boneco de Olinda sentado na sua frente no cinema
445 - um casal adolescente se bulinando do seu lado no cinema
446 - um grupo de meninas rindo à toa no cinema
447 - pessoas que falam no volume "normal" de voz durante o filme (sim, tem que cochichar, no máximo)
448 - pessoas que fazem comentários óbvios ou reações estúpidas e exageradas ao longo do filme
449 - Argh! Gente que dialoga com o filme
450 - fulano que deixa o lixo na poltrona ao fim da sessão
451 - quem mantém a mastigação barulhenta num momento de silêncio do filme
454 - cinema de shopping pra ver um "filme de autor com considerável apelo comercial"
455 - cinema de rua pra ver "arrasa-quarteirão com toque especial do diretor"
456 - público de cinema de shopping, sempre
457 - público de cinema de rua, nas estreias
458 - corujões de cinema de rua
459 - cinéfilos
460 - fãs de cinema marginal
461 - quem acha que cinema pornô é algo menor cultura e industrialmente que, sei lá, Cinema Novo
462 - cinema de interior nas férias passando, invariavelmente, filme da Xuxa e do Didi
463 - preço de pipoca em cinema
464 - preço de ingresso inteiro na capital

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

inglórios

Era um mercado de pulgas, uma rinha de galos, um cinema pornô redundantemente decadente, um clube de boxe tailandês, uma taverna costeira de estivadores ou uma reunião de contrabandistas estereotipicamente tarantinados. Tudo escuro, empoeirado, iluminado apenas com algumas lâmpadas amarelas. De repente, uma batida.

Uma batida não, a batida, pois quem chegou foi o Brad Pitt e seus bastardos inglórios. "Ih, lá vêm os malas. Espero que sejam mais convincentes que no filme", resmunga um exigente cinéfilo ao lado, vendedor de cabeçotes de vídeo-cassete. Você meio que concorda, mas pensa que as atuações são boas, o problema é o roteiro.

Brad Pitt cala a sala com o toque-toque das botas no chão úmido. Começa a vasculhar com os olhos, ao mesmo tempo em que inicia uma perturbadora tortura psicológica acariciando rostos com seu bastão. Percebe-se que aqueles piratas mal encarados estão é com medo.

De repente ele dá meia-volta e caminha a passos largos em direção a uma mulher pequena e feia, tipo a vilã dos Goonies, com rugas que parecem acidentes geográficos cenozóicos. Ela tenta esconder uma grande sacola atrás das costas, mas é inútil. É afastada como algo sem valor, e do saco cai tudo que é tipo de quinquilharia.

Um discurso para fazer suar frio. Um homem enorme, peludo, 50 e tantos anos, se levanta. Assume a culpa. Acha que vai se dar bem. Brad Pitt acaricia seu rosto com o taco, mas o atira no chão. O gordão tem certeza que vai se dar bem.

Você assiste a tudo ansioso. Brad Pitt se vira e com a mesma boca torta que tem feito em todos seus últimos fimes pergunta: "May I...?"

Não havia legendas.

Ele aponta sua bengala, ao que você cortesmente a oferece. "Seria um prazer, senhor."

Prepara a bengala, olha para o gordão e desfere, sem cerimônia, um único e fatal golpe. Você percebe que poucos tiveram culhões para olhar a cena. A cabeça do homem se transforma em um grande feijão. Ou um rim inchado.

Delicadamente, Brad Pitt limpa a sua bengala, removendo os vestígios de sangue, ossos e miolos. Um de seus asseclas, que provavelmente adora a palavra 'assecla', espeta com um palitão um naco do cérebro do homem, desabado morto no meio do salão, e o retira dali.

E aí você percebe que o homem com a cabeça esmagada no chão era o Brad Pitt.

A primeira regra do Clube da Luta é "jamais fale sobre o Clube da Luta"

sossegados

Reunidos em um corredor, funcionários da revista masculina de prestígio mostram a última edição a você, que a folheia surpreso. O anão, sempre aquele anão zombeteiro e folgado da firma, passa e arranca a revista da sua mão. "Dessa vez não, filhodaputa!"

Agarra, aperta e pressiona a cabeça debaixo do tampo da carteira que havia ao lado. Soca, soca, soca e esmurra até a paree de 10 centímetros de madeirite se deformar com o formato de seus dedos, já suados, sangrados e inchados.

"Hihihihi. Otário"
"É, o cara gosta de zoar com sua cara mesmo" - dizem antigos colegas que por lá passavam.

O resto de força que ainda havia é multiplicado pela raiva irracional, pela insana vontade de ver sangue espirrar. O punho esquerdo quase se fecha nele mesmo tamanha a gana de esmurrar. Bater por bater. Não importava mais o motivo.

Meia-dúzia de golpes ligeiros e desesperados depois, a massa disforme em que se transformou a cabeça do anão é posta de lado. Revista recuperada e uma única preocupação:

"A câmera me pegou. Devo levar multa ou só uma repreensão? Saco."

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

top 5 músicas de propaganda

Cinco comerciais que, nos últimos tempos, me fazem aumentar o volume só por causa da música:


5 - Peugeot 407, por Nichole Alden



4 - Mercado Livre, por Aselin Debison (e a Vespa do filme consegue ser ainda mais legal que a música)



3 - Rexona Energizing, por não sei quem, mas é legal (embora o desodorante, que ganhei no jabá, não resista a 6 horas de calor)



2 - Dior Sport, por The Killers (tá, o Jude Law é pra quem gosta, mas a música - e perfume, que uso - é boa)



1 - Adidas Originals, por Frankie Valli e Pilooski (selo plástico bolha de garantia festa boa)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

non grata?

Você é suspeito. Não sabe de que, mas é. Melhor correr. Fugir do ginásio de basquete, pela mesma porta usada pra entrar. A bicicleta vietnamina não estava mais lá, e a outra disponível estava acorrentada. Usou-a mesmo assim e, claro, não deu certo. Correu. Correu um pouco mais. Parou numa arquibancada, quando aquele cara gente boa, mas que você nunca soube o nome direito, te deixa com a culpa amarga e infinita das amizades mal aproveitadas. "Eles estão vindo atrás de você, já era, foge agora". Agradecido, corre mais e se esgueira por entre arbustos, após, por instinto, entrar à direita, num terreno baldio, e se encolher atrás de um cupinzeiro, por sua vez atrás de um Corcel que já fora vermelho, mas que agora é só poeira.

Pelo reflexo da calota, que mesmo empoeirada mantinha um orgulhoso reflexo, você vê um corpo se aproximando pela esquerda. Uma velha, de pantufas e vestido de bolinha, com uma espingarda-boca-de-sino do Urtigão apontada em sua nuca. Já era.

O esquadrão que o caçava chega em poucos segundos, e a surpresa triste é ver, dentre os mercenários, dois amigos de infância, irmãos de sangue (entre eles) e de bar (entre vocês). Fuzis AR mirados na sua testa. É o fim.

Você é levado pelos dois e mais outros dois desconhecidos a uma casinha abandonada - aquele mix simpático de sala de tortura com cativeiro de selva colombiana. Revoltado, diz que se sente traído e que o motivo por estar sendo perseguido nem importava mais. Parte para cima, derruba um, deixa outro desgovernado, enforca o outro até que, sufocando, ele confessa: "você ainda não percebeu?" Que vocês são uns feladaputa que querem me matar sem eu nem saber por quê? "Não, mané, se liga:"

O irmão que havia escapado de seus golpes desesperados abre a porta e nocauteia o guarda a postos do lado de fora. Volta e diz que é a hora. Você foge, ainda sem saber o motivo, mas feliz.



sangue. honra. fidelidade. força. e um tiquinho assim de malemolência. é isso.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

tá, confesso, está um tanto corrido construir o melhor site de educação do Brasil, pagar de pioneiro e tendência no newsgame, fazer as melhores festas do ano pra uma penca de gente, manter um blog lixeira e conseguir tempo pra ser o amigo bêbado, o consolador das almas inconsoladas, o DJ amador, o barman agregador e ainda ter que ler o que me falta, ouvir e baixar o que me resta (parei em 1995 nos 1001 Discos...), jogar videogame e investir no futuro.

Oquei, oquei.

Eu voltarei, queridas leitoras. Um beijo no queixo

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Pacman é o cara

Pena que Norman Mailer não está mais aí para fazer um perfil à altura do monstro filipino... Me empolguei, tentei e mandei.



O maior boxeador do mundo é um frangote das Filipinas de 1,69m. Seu nome: Pacman

Ricky Hatton parecia confiante naquela noite de 2 de maio, em Las Vegas, Estados Unidos. Detentor do cinturão da IBO (Organização Internacional de Boxe, em inglês) na categoria meio-médio-ligeiro (até 64 kg), o britânico branquelo conhecido como The Hitman defenderia o título mundial contra o filipino Manny Pacquiao no duelo que vinha sendo chamado de “guerra dos mundos”. Mal-encarado, feio e dono de um certo carisma, Hatton, 45 vitórias, 32 por nocaute, somente uma derrota, era apontado por muitos como o favorito da luta, apesar do currículo respeitável de seu oponente, com 48 vitórias, 36 por nocaute, três derrotas. “Ele vinha numa ascensão extraordinária”, diz Mauro Silva, presidente da Confederação Brasileira de Boxe. Seria uma luta equilibrada, mas Hatton tinha boas chances de vencer.

A dúvida pairou por menos de seis minutos. Hatton foi demolido. O campeão beijou a lona de forma histórica. Os cerca de 2 milhões de americanos que pagaram para ver a luta no pay-per-view, segundo o USA Today (chegando perto do recorde de um evento PPV, de 2,4 milhões) ficaram atônitos. Idem os milhões de filipinos que lotaram teatros, restaurantes e ginásios, deixando as ruas do arquipélago praticamente desertas para ver a luta. Mais que todos, no entanto, os 10 mil fãs de General Santos, cidade-natal de Pacquiao, que não desgrudaram os olhos puxados da frente da TV. Sem esquecer as 16 262 pessoas que desembolsaram até mil dólares por um ingresso no MGM Grand Garden Arena. Todos sem ar.

Ao soar do gongo, Hatton partiu para cima do asiático, conhecido no mundo do boxe como Pacman, o quase mitológico personagem de videogame que papa tudo que vem na frente. Em vão. Um gancho de direita, assim, de cara, colocou o inglês de joelhos até a contagem do árbitro chegar a oito. Combalido, Hatton se segurou até o fim do primeiro assalto, atingindo nada mais que o ar com seus socos, quando foi novamente atingido.

Segundo assalto. Recuperado, Hatton parecia querer reverter o jogo ao acertar alguns golpes em Pacman. Mas aos 2 minutos e 29 segundos um direto de esquerda no queixo, impecável, monstruoso, jogou Hatton de vez no chão – e Pacquiao na História. “Foram golpes certeiros. Hatton teve um lindo sonho na lona”, diz Mauro Silva. The Hitman caiu destroçado, e o árbitro, preocupado com o estado do inglês, declarou o fim da luta sem nem mesmo fazer a contagem. O próprio treinador de Hatton, o ex-pugilista Floyd Mayweather, sugeriu a aposentadoria ao pupilo, que permaneceu estirado na lona por alguns minutos. O Herald Tribune noticiaria dias depois que o estado de Nevada, onde fica Las Vegas, não vai permitir que Hatton lute de novo ali, a não ser que especialistas digam que seu cérebro não corre risco de dano permanente.

Pacman faturou US$ 32,8 milhões com a vitória, entre prêmio e direitos de TV. A glória foi mais uma de uma trajetória impressionante. Pelo Conselho Mundial de Boxe, ele foi campeão mundial pesos leve, superpena e mosca. Pela Federação Internacional de Boxe, ganhou o mundial peso pena. Foi o quinto título mundial, na quinta categoria diferente, o que o faz ser considerado pela revista especializada americana Ring o melhor lutador da atualidade, considerando todas as categorias. Ele já ganhou sete prêmios de lutador do ano, entre 2006 e 2008, por três entidades diferentes. “Não há nada a se comparar”, diz Cliff Rold, da Ring. “Um ex-campeão peso mosca derrotar o atual campeão do meio-médio-ligeiro é algo sem precedentes.” Pacman tornou-se o quinto campeão quíntuplo da história, entrando no rol de pugilistas como Oscar de La Hoya - que, inclusive, foi nocauteado pelo filipino em dezembro passado.

Segundo especialistas, Pacquiao reúne qualidades raras de serem encontradas juntas em um atleta. “Ele tem fibra e raciocínio técnico incríveis. Une o mental, físico e psicológico de maneira exemplar”, opina Mauro Silva. Rubens Costa, psicólogo da CBBoxe, acrescenta o fato de ele ser canhoto. “A movimentação do corpo é diferente, atrapalha a vida da maioria dos oponentes, que é destra”, diz. “Além disso, uma pesquisa realizada com especialistas do mundo todo apontou que a rapidez dos punhos é a qualidade mais desejável em um grande lutador. Pacquiao é muito veloz.” (na dúvida, digite o nome do cara no YouTube).

Para Cliff Rold, Pacman tem a habilidade de se desenvolver e uma aptidão para o esporte que poucos têm. “Ele tem a velocidade e o poder, e evoluiu muito nos últimos dois anos”, diz. Quem o enfrentou concorda. Em 28 de junho de 2008, numa entrevista à TV americana logo após perder o título do peso leve para Pacquiao por nocaute, David Diaz, com o rosto inchado, detonado, borbulhando de sangue e hematomas, disse: “eu havia assistido a umas fitas, e tinha ficado mais preocupado com a força do que com a velocidade dele. Achei que podia aguentar a rapidez. Mas ele é incrivelmente rápido.”

Franzino, Pacquiao tem 1,69m e nasceu há 30 anos na ilha de Mindanao, foco de separatistas islâmicos no único país majoritariamente católico da Ásia. Durante a luta com Hatton, as guerrilhas fizeram um cessar-fogo não-oficial com as tropas do governo. Alguns guerrilheiros viajaram quilômetros para ver o combate, e mal tiveram tempo de esquentar a cadeira.

“Queria que nossa rebelião pudesse se resolver tão rápido quanto a luta”, declarou o porta-voz da Frente Moro Islâmica de Libertação, há 14 anos enfrentando o governo de Manila. O papa-tudo Pacman, que já pagou de ator, gravou discos e passou pelo Exército, agora é aclamado como futuro presidente de seu país. Como disse um mototaxista filipino a um diário de Cingapura, “nem o Obama pode com Manny”.

revista VIP, versão brutalmente estendida, junho de 2009

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O Ocidente venceu

E brilhou muito na comemoração de 20 anos atrás:





O mais legal, como lembrou alguém que comentou no YT, é que ninguém tinha telefone no lado oriental. Só os gambés da Stasi. Vidaloca teutônica é isso aí.