sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

tequila

Era a época. O auge da esbórnia. A única paixão era a carne pingando na brasa e as latas suando mais do que eles naqueles dias de loucura e delírio. Não davam a mínima para as cenas grotescas que protagonizavam. O Ricardo e suas tetas caídas pondo toda a água para fora da piscina. O Felipe e aquela cachorra, me deixando aqui sozinha... Cachorra não, vagabunda, que ele trazia pra casa sempre que os moleques estavam aqui, só pra tirar foto dela pelada ou deixar a porta do quarto aberta, sabendo que todo mundo ia invadir para vê-lo em ação. Ou vê-la, que foi o caso. O Eduardo e o Gustavo, imbecis, dançando no telhado. A gringa fazendo todo mundo de bobo. Aquelas danças, como era possível serem tão ridículos. Começavam a se lambuzar e chacoalhar. Poderiam ser travestis em São Paulo, aquela cidade cheia disso. Mas eram eles, os idiotas que já mandaram na cidade. Rebolavam de tanga e agarravam-se uns aos outros, só pra provocar as poucas meninas que ficavam até tarde para ver esse horror. Eu não tinha jeito, era obrigada a ver. Mas tudo bem, me divertia, dava risadas, me molhava à beça. O dia inteiro, a noite inteira. Foi um tempo bom, tenho certeza que eles se lembram quando começaram com eça beçteira de ç çedilha.

Só não sei se eles vão se lembrar de mim. Eles foram embora e eu continuei aqui, dormindo debaixo do tanque, até morrer, semana passada.

Verão 2006

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

mudou tudo

"Faço algo parecido com jornalismo desde os 11 anos. Naqueles idos de 1994 e 95, eu resolvi fazer toda a cobertura do campeonato de carrinhos do bairro. Os carrinhos eram miniaturas de no máximo 10 centímetros e os privilegiados pertenciam às equipes de luxo, Hot Wheels e Matchbox, que disputavam ponto a ponto o torneio. O bairro em questão era o Jardim Brasília, na mais mineira das cidades fluminenses, Resende, na divisa com Minas Gerais e São Paulo. Acompanhava os treinos para o grid de largada, as corridas e os escarcéus dos participantes, que brigavam e estapeavam-se constantemente. Distribuía meus textos sensacionalistas na simplória diagramação que criara e oferecia aos “pilotos” o Eclipse Total, que depois ganharia mais capricho no acabamento, com o cafona título Goldenclipe Total.

No entanto, ninguém queria conferir meu trabalho. Aqueles preguiçosos amigos do bairro não gostavam muito de ler e eu tinha que esfregar-lhes na cara as notícias. Numa tentativa, apelei para gráficos e caricaturas infantis. Mas o problema mesmo não era a falta de interesse deles, mas a total parcialidade deste aprendiz de repórter. Como eu era um dos líderes do campeonato (fiz vultosos investimentos que rasparam mesadas na compra de Lamborghinis e Porsches), usava minha singela publicação apenas para desestabilizar os oponentes. Cansados de tanta intriga e discussão, todo mundo largava a disputa no meio e, por três ou quatro edições consecutivas, o torneio nunca chegou ao fim. Aprendi que essa tal imparcialidade é, de verdade, muito importante para qualquer jornalista que almeje respeito e credibilidade na sua carreira. É claro que não cheguei a essa conclusão com 12 anos, foi um pouco depois.

Aos 16 anos, aproveitando todas as benesses que a vida de classe média em uma cidade interiorana podia oferecer, quis dar um passo além daquela rotina fútil de xingar o professor de química, apaixonar-se por uma amiga do irmão e descobrir os prazeres do álcool em festas de amigos. Criei um outro pasquim, com o intuito de ser a voz dos jovens. Não dos adolescentes engajados, com uma causa por lutar, mas daqueles simplesmente...fúteis. Convidei alguns dos meus melhores amigos (quase todos péssimos alunos como eu) para diversas funções em A Gazeta. Redação, arte, comercial, internet, pontos de distribuição e merchandising. As manchetes, do tipo “Professor é trancado para fora da sala e alunos quebram tudo”, ao lado de notas que revelavam quem estava ficando com quem, fizeram sucesso na cidade toda. Quase todos os alunos das escolas particulares eram leitores assíduos e, na medida do possível, exigentes. Passamos madrugadas em gráficas, não ganhamos um tostão sequer (o que sobrava das cotas de publicidade era investido em churrascos), mas o prazer de ver um recreio em silêncio, com estudantes e professores liberais entretidos na leitura do nosso trabalho, compensava qualquer esforço ou suor.

A Gazeta ganhou notoriedade, à essa altura já estava mais que óbvio que eu iria prestar vestibular para jornalismo. Ficamos famosos na cidade, fomos assunto de um programa da TV Globo local e, aos 17 anos, consegui algo que poucos repórteres já haviam conseguido: entrevistar um marciano. Arc, o alienígena que passou alguns anos pela Terra e às vezes visitava a redação de Veja, concedeu a mim uma entrevista exclusiva pela internet, que, na semana seguinte, foi publicada na íntegra na maior revista do Brasil.

Algumas vezes, a vida no interior não oferece aquilo que se quer para a carreira, então eu decidi fazer jornalismo em São Paulo. Um pouco antes da formatura, encerramos as atividades de A Gazeta, não sem melancolia. Consegui entrar na Cásper Líbero e, desde então, nos estágios e trabalhos de faculdade, conheci gente de tudo que é tipo. De saunas gays no Largo do Arouche a oficinas mecânicas em Cuiabá. Vi na faculdade muita coisa que já tinha reparado quando era um editor adolescente. A pressão dos anunciantes, o interesse político, a crítica, a correria do fechamento. Aprendi que curiosidade insaciável e uma necessidade quase obsessiva pela apuração são pré-requisitos de um repórter. Eu os tenho. E sei, há mais de 10 anos, que o jornalismo é o que quero para mim. "

Escrito em São Paulo, outubro de 2005
Três meses depois, Curso Abril.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

caixa

[cheia].

voz do povo

Duzentas pessoas, sendo 180 convidados e convidados dos convidados dos aquarianos. Um DJ que respeitou o pedido musical dos aniversariantes - especialmente na hora de avacalhar com o dance farofa dos 90 - um bar deveras agradável com garçons rápidos e gentis e uma banda que daqui a pouco nem precisa da pagação de pau dos amigos. "De 4 é melhor" encerrou o verão 08, temporada marcada por bermudas, amarelo, calor no Ano Novo, frio em janeiro, um Carnaval que não foi e a estréia do Cooler, Johnny Coller.

Se um perfil pode ser escrito sem se falar com o bijeto, um evento pode ser narrado em frases picadas, agarradas no ar empertigado de vodca e alegria.

"Po, o Milhouse é igualzinho o Milhouse mesmo, nunca tinha reparado." Lucas van Deursen

"O Fred é muito figura. Adorei a banda, de verdade" Anita Martins

"Muito bom, cara. Larga o jornalismo e vira promoter, faz só festa assim" Hugo Vidotto

"O Gabriel é um fofo" Fonte não identificável

"Gostei daquela menina, mas ela tá ficando com o grandão irmão do cara da banda, né?" Paulo, o Moço

"Não trouxe presente, mas vou apertar sua bunda" Heloísa Joly

"A gente vai se casar" Mário Sérgio Lima e Flávia Pierry

"Eu não sou vidaloca!" Flávia Martinelli

"Po, Flipe, mó legal vuáá" Mateus Valadares

"Ah, ela é gata. Tipo assim, sei lá" Thiago Lacaz

"Garoto, bagaceira é o que pega" Giovanni Tinti

"Me ajuda. Tem três meninas loucas aqui" Bruno Lozich

"Ela é aniversariante e não vai pagar!" Bruno Gabrielli, estressado

"O futebol francês é uma escola dura, apesar de não parecer." Bruno Gabrielli, bêbado

"Um homem sem chifres é um homem desprotegido" Fábio Peixoto, apó o hit Balada do Corno

"Essa música é pros homems brancos que não sabem dançar, como o Felipe" TiTi

"A vida começa aos 25." Alessandra Kalko

"Quantas você já pegou?" Daniele Doneda

"Você é um suceço" Meu espelho, às 6 horas

sábado, 9 de fevereiro de 2008

passarinho que não tinha * explodiu

A cafajestagem aumentava na medida que machucavam as desilusões amorosas, quanto mais chorava, mais mulher traçava, mas burrada fazia, mais pé levava até começar a pegá-las por atacado, afogando-se num mar de clitóris apaixonando-se cada vez mais cada vez pelas mais problemáticas e mesmo assim achava que estava feliz porque nasceu para ser um garanhão puro-sangue. Aos 70 anos, derreteu-se monumentalmente pelo parceiro de cricket.

Era 1996 e o Viagra sonho distante.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

lado B

A cidade deserta parece que foi abandonada (afinal, ela está deserta) pelo medo de uma turba ensandecida de guerreiros mongóis. Ou, num contexto atual, quenianos raivosos. Ou, num contexto atual e local, foliões. Mas na cidade que não tem Carnaval, a vida quase não é. O que é pior. Porque os poucos que sobram, aos quais eu, por livre e espontânea pressão da vida e do trabalho, me juntei, tentam, inutilmente, achar uma diversão que seja. Ou, nem isso, uma mísera conta para pagar. Shopping fechado, cinema, bancos, comércio idem. Até Quarta-Feira de Cinzas. A chuva (afinal, é o Carnaval que não foi) destruiu a fiação de telefone de uma das principais ruas, e por quatro dias os clientes da única agência do banco que foi brasileiro, foi holandês e hoje é espanhol ficaram impossibilitados até de tirar dinheiro. Somado à baixa popularidade de máquinas de débito nas poucas lojas e bares abertos, fiquei liso por todo o feriado. Sem dinheiro, sem pessoas na rua, sem sol no céu. Só vento, chuva de outono, saudade. Mais um pouco e uma multidão de cegos animalescos poderia dobrar a esquina e arrancar minhas roupas. Mas o Saramago deveria estar numa folia qualquer.

Meu primeiro Carnaval sóbrio da década me fez entender por que tem gente que não suporta a maior festa da Terra (desculpem os cariocas, mas é a maior festa da Terra desde que o homem é homem. E não tem nada a ver com Sapucaí). O nosso podre fica mais latente. E ainda mais evidente quando estamos aqui, do lado de cá, do lado dos que não começaram a beber sexta e se encontraram hoje de manhã no estado mais selvagem da natureza humana. Felizes.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

2.5

Desculpa aí, mas aqui não existe essa de inferno astral. Oquei, eu sou um sacerdote Ulça e, além dessa película amoral e charlatã que me mantém incólume a bobagens zodiacais, nasci numa madrugada quente de tempestade, 31 dias após o início do ano em que Xuxa estreou na Manchete, Reagan invadiu Granada e o Sepultura foi criado. Ou seja, o meu suposto inferno astral, como me explicaram certa vez, começaria exatamente na rebarba dos fogos de boas-vindas ao ano e seguiria ao longo do primeiro mês, aquele, o do verão. Na boa, aqui isso é impossível. E hoje, depois de 25 verões, à beira de meu 25º Carnaval, digo com segurança: todos os momentos em que eu rastejei na lama e fui beijado pelas larvas da mágoa em janeiro foram superados em instantes por uma aventura muito maior, gratificante, louvável - um suceço, enfim. 2007 foi assim, 2002 também, 1999 idem, assim como 1995, 2005 e, agora, 2008.




Que venha a vida. Baladão dia 9, show do Milhouse.



terça-feira, 29 de janeiro de 2008

sonho bizarro de um dia aí VI

O homem de vermelho andava olhando para o chão, sozinho como vira-lata sem mendigo. Reencontrou a mulher, morta ou quase isso. Sem saber como ou por que fazia aquilo, removeu todos os ossos dela por uma cavidade no pescoço e os absorveu para seu próprio corpo.

Piscou, olhou desfocadamente, suspirou, piscou novamente até que falou:
- Pronto, está feito. Eu te sou e você me é.

Assim o Senhor Incrível, forte como um touro graças a seus dois esqueletos, e a Mulher-Elástico, linda, lisa, frágil e ágil, formaram o casal mais legal do mundo.

conchas

Tem coisa mais idiota do que o cara que começa uma frase com "é o que eu sempre digo" ou "eu tenho uma frase que..."? Sério, é ex-integrante do Big Brother, cantor de dupla sertaneja em vôo solo, jogador de futebol dos anos 90 em mesa redonda domingo à noite. O idiôta chega e lança o petardo: "Bem, Bial, eu tenho uma frase que costumo usar que explica bem esse tipo de situação" ou "Olha, Milton, eu sempre costumo dizer nessas horas..."

E o pior é que o que vem a seguir é o maior lugar-comum da galáxia, e o animal atribui a ele a autoria! hahaha

"Bem, eu tenho uma frase que ilustra bem esse tipo de momento: bobeou, dançou"
"É isso aí, é o que eu digo: espeto em casa de pau tanto bate até que apanha."

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

uhulça

Vidaloca é dormir duas horas a menos pelo melhor dos motivos do mundo, acordar uma hora e meia depois de pregar os olhos e ficar feliz em encarar umas 12 horas de trânsito para chegar na praia, só para aproveitar a folga que aquele jesuíta criou ao inventar a cidadeloca. Verão 2008, suceço.

nome aos bois

Quinta-feira à noite e o duo cerveja-televisão poucas vezes funcionou tão bem. A empresa de telemarketing que ganhou a concessão para montar sua rede de TV (-!-) de maneira polêmica menos de 10 anos atrás tem na mulher que finge ser burra mas disso nada é e usou o bucho cheio por um decano do roque para ficar famosa uma de suas maiores atrações. Na noite em questão, um acalorado debate entre um vereador da cidade meridional que há muito é conhecida, de maneira jocosa, por ser um celeiro daqueles que preferem seus semelhantes e outro, da metrópole que comemora quando há menos de 100 mil metros de carros parados e poluindo e que foi eleito em boa parte por causa de seu inegável talento em música que torce o nariz daqueles que o levantam para ouvir uma sonata de Brahms. O debate se dá devido à maneira que o primeiro ganhou espaço na mídia, trajado de messias e bombachas e realizando serviços inócuos de umbanda, o que provocou a ira de religiosos e políticos, que são criaturas que adoram ser levadas a sério. Mediando o embate, além da supracitada apresentadora, um padre de visual à la grupos de maior sucesso musical do fim dos 90 - aqueles mesmo, de cordões dourados maiores que correntes de calabouço, gel no cabelo como se ele fosse fugir, passinhos combinados e letras cheias de diminutivos - e um legítimo representante do que de melhor a juventude interiorana tem a oferecer, um rapaz de chapéu, camisa estampada, cinto de fivela anabolizada e, bem provável, a chave de uma picape que consome 3 mil árvores para ir até a esquina no bolso. Tudo isso patrocinado pelo guaraná que chamou atenção na mesma rede de TV (-!-) alguns anos atrás por alegar estar defendendo os interesses nacionais contra aquele monstro estadunidense que inventou o Papai Noel e a lenda de que o Natal é feliz. Por volta das 23h, o gongo soa, comemorando a liderança de audiência atingida naquele instante. Ou seja, do outro lado da tela, 547 milhões de pessoas identificando-se e delirando com aquele espetáculo.

O lado B do Brasil. Cara, como eu amo esse país.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

fórmula

Esqueça a física quântica, deixe-a para quem trabalha com isso e não escreve livros caça-níqueis. Mas, uma coisa é certa, a vida, a galáxia, a prateleira de action comics, o sutiã e tudo mais são feitos de fórmulas. E a fórmula do suceço é o seguinte:

um trabalho que não te faça contar os segundos para ir embora porque você se diverte nele e ainda ganha o suficiente pra comer, dormir, se vestir, viajar e beber + a pessoa que te completa ao seu lado e por baixo e por cima e sem grudar + os amigos que vão te jogar pro alto no aniversário e perguntar, do nada, num dia nublado se está tudo bem + satisfação de ser feliz com o que tem e saber esperar o que sabe que vai chegar pra completar essa lista = SUCEÇO.

Mantenha isso, cultive isso e valorize isso. Aí, é hora do ZUZEZO, o sétimo sentido da plenitude.

ulça

domingo, 20 de janeiro de 2008

tormenta

Perdeu o controle ao vê-la segurando o cigarro mais uma vez. Ela tinha prometido largar o vício. Impulsionado pela raiva que deixava seus olhos ainda mais loucos, segurou o pulso dela até imprimir seus dedos curtos de roxo. Arrancou o cigarro aceso e apagou-o ali mesmo, no próprio braço. "Seu louco", ouviu. Deu-lhe um sonoro bofete. Beijou-a, mas ela correu e o abandonou. Em uma semana, encontrou o amor tranqüilo, que ele nunca pôde lhe dar, por mais apaixonado que fosse.

Hoje, cumprimentam-se educadamente, dizem até que podem vir a ser amigos. Só amigos, porque ele ainda não sabe o que é navegar placidamente. Talvez nunca aprenda.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

redação de férias I

Duas semanas bastam para nos levar longe. Às vezes nem tão longe na quilometragem amazônica dessa terra de dom João, mas o suficiente para um menino criado nas ondas dos mares de morros ver, entre um piscar e outro de um sono leve como conversa ouvida do lado de baixo da água, que três coisas podem bastar para uma vista de matar. Uma linha, reta, sublime e coerente, dividindo um campo vasto que voltará a ser verde dali a quatro horas de uma abóbada arroxeada e reconfortante. No meio de tudo, uma árvore. Sozinha no nada, a mesma árvore.

Rodovia Anhangüera, rumo a Goiás - Dezembro 2007

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

colírio

Sábio aquele que fez voltarem à moda os óculos escuros grandes. Escondem a cara de ressaca, não mostram de jeito nenhum para onde estão olhando as pessoas e, o melhor, deixam aquelas meninas - especialmente as indiezinhas da Augusta - de rosto cavernoso, pele oleosa e nariz torto, uns quase pitéis.
Na rave todo mundo é mais bonito. Obrigado, Chili Beans, a Swatch dos raios anti-UV.