Era engraçado ver aquele cara, estranhamente bonito, visivelmente alheio à realidade que lhe cercava, mas, mesmo assim, harmoniosamente envolvido por ela. Dava para ver no sorriso estampado em sua cara rosada. Não devia ser estrangeiro, mas dançava como tal – ou pelo menos fazia gênero. Parecia não se caber de tanta euforia quando andava na contramão do trio. A massa rumava a norte, ele insistia no sul. Esperto, dava de cara com todas as garotas sem precisar fazer quase que movimento algum. Os amigos passaram a imitá-lo. Com uma mão na barriga e a outra nas costas, ele era a sátira transeunte do amante latino eslavo. Parecia adorar fazer sucesso, se esbaldava com seu jeito excêntrico – especialmente porque os amigos, estes sim, típicos do meio, o seguiam e se sentiam bem e seguros por fazê-lo.
Entre uma lufada de loló, um gole de cerveja e o beijo de uma qualquer, parei de observar aquele italianinho para checar um torpedo no celular: a resposta-chave da entrevista-chave do meu livro. Repórter ridículo. Desmarquei a entrevista porque não podia perder a festa – e ela podia, do meu jeito, ser feita via celular e e-mail. Consegui as respostas que queria, estava pronto. Oquei, de volta à esbórnia. O cara estava do meu lado e eu vi nos seus olhos o brilho estúpido que eu tive, pela primeira vez, quando vi que a Renata, a menina mais linda de todas da escola, olhou para mim na missa (por conta disso alimentei uma paixão de seis meses e, é claro, ela não queria nada comigo, deve ter olhado para a espinha do tamanho de um beijinho que brotara no meio da minha testa). Otário, resolveu se apaixonar no campo de batalha das relações etéreas e superficiais, onde o beijo é artilharia e ninguém se esconde nas trincheiras.
Bom, frise-se que era uma bela loira, provavelmente dessas para quem Bell Marques é pastor o axé é catártico, mas uma bela loira. Olharam-se – alguém apertou o “mudo” do mundo enquanto 3 mil jovens de classe média e média alta se entorpeciam e se lambiam apertando com a maior força da galáxia o botão do F – trocaram um longo, tenro, apaixonante beijo. No final, o italianinho continuava olhando a garota, que logo foi puxada por uma amiga eufórica e desapareceu na multidão. E foi aí que me surpreendi. Quando achei que o mané ia ficar deprimido ou coisa e tal, ele voltou a pular e, dois minutos depois, olhou com a mesma cara de Coldplay para outra loira. Aí lembrei que era 2005 e que esta é a minha geração. A espiral roxa de um lança-perfume, a paixão que dura a vida de um protozoário. Efêmero. Instantâneo. Já. Triste.
Juiz de Fora, outubro 2005
domingo, 11 de novembro de 2007
Ecstasy
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Ecdise
Engraçado como o mundo aqui é tão louco que até esquecemos que estamos quatro metros abaixo do nível do mar. Que mulheres espetaculares, pernas brancas do tamanho de prédios, roupas da puta que você queria para o resto da vida, bundas perfeitas. Tudo era felicidade, mesmo a comida gordurosa e os banheiros públicos pagos. Não importava, finalmente estava livre. Cinco meses.
Naquele dia, não me interessavam os cardápios de maconha indonésia, haxixe africano, tampouco os chás holandeses, os bolos espaciais. Foi com uma bicicleta mais velha que eu e pneus mais finos que a canela de uma aspirante a Mega Models que eu senti, pela primeira vez em quase um semestre, a leveza de ter quitadas todas as minhas dívidas com o Serviço Moral do Cosmos. O pior namorado do mundo, o amigo traidor, o filho ingrato, o irmão egoísta, o colega vil, o aluno vingativo largou os braços do guidão e, cheio de vento na cara, sorriu, agradecido. Era o gosto da liberdade saudável.
Amsterdã, janeiro de 2005
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
sonhos bizarros do dia V
Já havia deixado a luta tinha anos, mas eles quiseram porque quiseram que os liderasse mais uma vez. As circunstâncias eram boas, teriam grandes chances de vencer. E assim, do nada, voltei à batalha. A república de Joselinas, uma ex-colônia portuguesa no Cáucaso, via em mim o herói que a removeria da sombra opressora do pós-comunismo soviético e a colocaria no rumo do progresso graças à vaga na União Européia que lhe era prometida havia anos.
Pois bem, nunca me vi tão carismático e eloqüente em público. Fácil, fácil, pus as massas na minha mão e as conduzi à revolução. Mas foi só quando vi as primeiras mortes, as decepções iniciais, as derrotas, a dor, as janelas quebradas e os pneus queimados, as mães chorando e os homens sangrando, que percebi onde estava me metendo. Aceitei o convite de encabeçar uma reviravolta nacional por um motivo desconhecido à toda a população. Eu estava me lixando para eles, seus prédios baixos, gente cinza e carros quadrados. Só queria me tornar um líder revolucionário para impressionar aquela ingrata, que não queria mais me ver nem pintado, nem esculpido. E nem sei se ela iria curtir um anti-Che do século 21. Pensei que seria uma boa idéia, fazer uma coisa que valesse a pena - nem que fosse só por uma garota.
Levei uma nação à guerra por uma paixão que eu não tinha idéia aonde ia me levar. O amor é muito egoísta mesmo.
sábado, 27 de outubro de 2007
Resenhas de uma linha só IV (na mostra)
Inimigos do Império mostra que o "algo de podre" no ar é proporcional ao tamanho do reino. (mais aqui)
Transformaram nosso Deserto em Fogo é Michael Moore sem deboche e faz Darfur escancarar que somos tão burros quanto os mais ignorantes estadunidenses.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Sonhos bizarros (nem tanto, vá) do dia IV
- Por que você me olha assim agora?
- Porque agora eu te quero.
- Antes não?
- Antes não. Eu era boba e tinha medo de me machucar. De quebrarmos a cara de novo.
- E o que mudou? Além de eu estar melhor em tudo e você também?
- Você que diz, bobo. Agora eu percebo que o que me machuca é ficar longe de você.
- ...
E assim eu fiquei com a Penélope Cruz
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Sim, eu sou um fanfarrão
Cansei do capitão Nascimento batendo no Chuck Norris, cansei de revista que chama usuário de sócio de traficante, cansei de você que põe frases como "Tu é mu-le-que!" e "ZERO SETE, passa a DOZE" no MSN, cansei de Tropa de Elite e, principalmente, estou farto de Tihuana e funks dos anos 90.
Cansei do Huck, do Kibeloco, do Elio Gaspari. Cansei do Corinthians, de concurso de miss, do "caso Madeleine". Cansei do Renan, dos 5 mil dentistas da Teodoro, dos pedágios. Cansei do Cansei de Ser Sexy. Cansei do Cansei.
Estou cansado, tenho preguiça e quero uma cerveja. Começou o horário de verão.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Inutilidades do Largo
Em outros tempos, eu xingaria e amaldiçoaria todas aquelas criaturas gordurosas e largas que andam a passos paquidérmicos no largo da Batata. Me pergunto: por que diabos andar devagar no largo da Batata? Não tem motivo. E o pior, andam balançando os braços, como bonecos mambembes de Olinda, marionetes ocas que quase sempre me acertam as fragilidades quando tento uma ultrapassagem mal-humorada.
Não amaldiçôo mais. Nem xingo. Apenas bufo, olho para cima e rio da situação. Só não me peçam pra fazer essa patetada de ulça.
sábado, 6 de outubro de 2007
Resenhas de uma linha só III
Tropa de Elite osso duro de roer pega um pega geral também vai pegar você é bom porque explica como o morro, o asfalto, você, eu, seus amigos, sua galera, eles, sua empregada, o filho dela e o seu professor-cabeça somos todos a mesma merda que aduba o mundo.
O Grande Chefe mostra o quão pitoresco pode ser o senso de humor dinamarquês.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
Cansei não. Cortei
O porco-espinho estava cansado e desiludido de tantas porcas-espinho que haviam passado pela sua pinicante existência. Passado e nunca ficado. O porco-espinho, apesar da pose de mau, queria uma fêmea para chamar de sua até eles serem um só. Sim, no Bosque Encantado ainda há seres que acreditam em coisas como "pessoa da sua vida", "emprego perfeito", "família-modelo".
Mas um dia o porco-espinho conheceu a caracol. E o mundo parou quando ela o olhou de volta e veio em sua direção. Apaixonaram-se, acharam que era pra sempre, aquele oba-oba todo. Mas, é claro, o pra sempre durou bem pouco. Afinal tínhamos de um lado um porco-espinho e de outro uma frágil e sensível caracol. Qualquer atitude dele a feria profundamente. E então, desiludidos, foram cada um para seu canto, voltar a procurar o mais do mesmo.
O porco-espinho foi ouvir o sábio Pescador Barbudo, que vivia cético e feliz. O Pescador Barbudo, niilista e naturista, disse-lhe:
- Tudo isso aí, ó: cortei.
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Vive
"Why'd you have to go and let it die?"
Foo Fighters novo. Cada vez (mais) melhor que Nirvana. E não vou falar "pronto, falei" porque isso já está mais gasto que "Web 2.0"
eco. silêncio. paciência. graça.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
Enganados
O malfadado Congresso Nacional tentou melhorar sua imagem enlameada usando um pretenso erro de ortografia, segundo os doutores do Português. Não funcionou. Não se atinge o suceço assim, passando por cima de todas as fases: Iluminação, Auto-estima, Beleza Pura, Abraço Coletivo e Ulça.
Continuam no chiqueiro, mas fazem a fama dos fiéis à Ç, a letra mais sexy e bem resolvida do alfabeto. Não à toa, a letra sagrada de nossa seita ecumênica e charlatã.
Em breve, os preceitos das cinco fases para se atingir o ápice e beijar o céu.
Outubro é belo. O horário do Sol se aproxima. Sorriam para o lado, olhem para cima e caminhem para frente. Sem tropeçar.
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
Gênese
Choviam gotas grossas de lama e infelicidade naquele pedaço perdido de litoral. Tiago, o Antigo Pastor de Fêmeas, caminhava por entre ipês e amendoeiras (árvore que no outro lado da fronteira com os Assírios do Piratininga é chamada chapéu-de-Sol) com sua fiel labrador, chamada Tequila, quando avistou um grupo de navegantes visivelmente exaustos e perdidos.
- Digam-me vossos problemas, não lhes darei uma solução, quiçá um afago, viajantes!
- Pobre velho, deixa-nos. Sentimos náuseas, nossas cabeças parecem abóboras podres e inchadas, temos vassouras nos embrulhando as vísceras!
- Vós, que exagerastes sem parcimônia, que abusastes da boa vida que lhes fora dadas, mereceis o sofrimento a vós infligidos.
- E quem és tu, maracujá de pelos negros, para falar assim conosco?
- Eu sou a voz que não quer calar, aquele que veio lhes alertar do mal que acomete aqueles como vós.
- Um moralista politicamente correto?
- Talvez.
- Então faça-nos um favor, frango demente, suma de nossa frente, antes que botemos para fora todos os excessos depositados em nossos maltratados corpos.
- Pobres aqueles que abusam e sofrem, na crença de que a felicidade tem um preço.
Alheio aos comentários dos seus irmãos e amigos mais velhos, corrompidos pelo pecado e a lascívia, os três pequenos catadores de uvas Eduardo, Marcelo e Felipe ouviam os comentários daquele velho estranho. Na noite anterior, eles dormiam enquanto os quatro mais velhos comemoraram a chegada àquele pedaço perdido de litoral em um bordel inflamado de mulheres baratas e cervejas vagabundas e vice-versa.
- Sabem por que falhastes, viajantes?
- Bebemos sem comer antes, ó, senhor dono do Conhecimento Eterno!
- Falhastes a vida toda porque não tendes gratidão. Agora olhais o céu. O que há?
- É tudo cinza, é tudo triste, é tudo sem vida.
- Pois assim está desde que essa vila, nesse pedaço perdido de litoral, só olha o que não tem, só lamenta o que não existe, só chora pelo o que não há, só clama pelo o que não vem, só se lamuria pelo o que não está. Assim está há 40 anos e vós sois o tipo de gente deste lugar. Virarão pó com ela, pois daqui nunca sairão. Bem-vindos a Sagoma.
- Aqui não é Gozorra?
- Não. Gozorra foi engolida pelo vulcão. O oráculo diz que a próxima erupção deverá chegar àqui...
- Quando?
- Dentro de sete...
- Anos?
- Dias.
- Correto. Agradecemos a informação. Senhores, levantar âncora, pois que vomitem no mar!
- Não tens saída. Estava escrito nas estrelas que nunca vistes em vossa lamentável existência. Estais fadados a compartilhar o fim deste pedaço perdido de litoral.
E não falaram mais nada os navegantes. Seguiram calados à vila e se afogaram em todas as tavernas e todas as camas de todas as meretrizes de Sagoma. Após seis dias de orgias e depravações, os quatro viajantes - que haviam sido cavaleiros em outros tempos e outras paradas - sentiram dentro de si o maior de todos os ocos, aquele que suga cada sopro de ar e significado de suas efêmeras vidas. Uma sombra de depressão lhes varreu o brilho dos olhos, o vazio eterno da Grande Verdade, a Verdade Branca, abraçou suas pobres almas por trás, a tristeza maior do mundo brotava de cada falha das paredes beges e esfareladas, roubando o espaço que pertencia às ervas-daninhas. Não havia mais força ou vontade, nem nos viajantes nem em nenhum dos 166 habitantes da vila, para sequer esboçar uma reação frente à onda de lava e calor infernal que os engoliu e transformou em rocha o pouco que restava de vida naquela maldita vila.
* * *
Tiago, o Antigo Pastor de Fêmeas, observava, do alto do monte Mor, a fumaça negra e quente que subia dos restos daquele pedaço perdido de litoral.
- Venhais comigo. Tenho pouco tempo para ensinar-lhes o que deve ser passado àqueles iluminados. Um segredo ensinado pelo mestre de meu mestre, Camus de Aquário, e que lhe foi passado pelos outros lamas ao longo dos séculos.
- Olhais para cima.
Eduardo, Marcelo e Felipe obedeceram Tiago, o Antigo Pastor de Fêmeas, e viram, pela primeira vez em sua ainda imberbe adolescência, a mistura leve de vermelho, laranja, rosa, roxo, lilás, azul e amarelo que compunha a aurora de Valhala.
- Repitais comigo: Uuuulllçaaaaa
- Uuuulllçaaaaaaa!
Ao seguir os passos de Tiago, o Antigo Pastor de Fêmeas, os catadores de uvas sentiram o abraço suave de todo o céu. E sorriram, gratos como nunca pelo pouco que tinham e lhes era mais que suficiente para irradiar e compartilhar sua felicidade.
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Sonhos bizarros (da semana) III
"Que diabos este retardado está fazendo com o paralelepípedo?
- Não sei, mas o cara é forte, o bagulho é do tamanho de um baú!
- Porra, ele vai jogar na gente!
POW (minhas onomatopéias são infantis até em sonhos tarantinescos. Foda-se, sou uma criança feliz), o cara atirou a pedra no capô do carro. Um estrondo, vidros trincados, arranhões, arrasou a nossa caixa-preta. Por quê? Sei lá, estávamos parando o carro, rumo à tradicional voltinha no centro de São Sebastião, depois da pizza de domingo à noite.
Pegamos os porretes e fomos para cima do cretino. Era pra ser um susto mas alguém errou a mão. Matamos o coitado.
- Vamos assumir ou vamos nos fazer de playboys cuzões?
- Somos playboys legais. Vamos assumir. Foi defesa, carro é mais importante que muita coisa neste país. Que esse otário aí, com certeza é.
- Então vamos nessa, duas semaninhas no xilindró.
- Uhu!
Desprovidos de culpa ou remorso, entramos em uma rua de paralelepípedo em que, de repente, as casas coloridas colonias brasileiras viraram cabanas enxaimel da Floresta Negra. Algum mala começou a discutir Lutero, tive que intrometer:
- De 95 em 95 teses a gente chegará na auto-religião e o individualismo virará dogma.
- É?
- É.
- Mamãe vai bem?
Mas o padre ciclope ouviu o que eu disse e se virou para falar. Na verdade, só vi que ele era um ciclope quando ele se virou, é claro. Um grande olho, na boca, não na testa. Não sei de onde saía sua voz, mas ele disse, em tons monocórdicos:
- Sim, você está certo, meu filho. Mas veja, O Segredo - The Secret é muito mais que ligar um sinal positivo na sua mente e esperar que tudo venha até você. O Segredo - The Secret é a fonte e, você, o torneiro mecânico.
- Correto.
A vila alemã se transformou em um Tetris 3D com linguagem meio Bomberman, meio Mario. Bichinhos fofos caím no abismo e voltavam mais felizes. Eu fiquei amigo deles.
E ficava olhando para ela. Ela que às vezes era ela, mas me confundia e se transformava em outra. E a outra era ela e eu não tinha as duas. Não sabia mais o que queria.
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
sem saber
Os sapatos bicolores herdados do avô estavam sujos de pó e cinzas da cana, que naquela época do ano chegavam a encobrir o céu e sol de mil anos que tostava a vila. Os passos eram os mesmos dos tempos áureos, seguros, compassados e cheios de vida. Mas o Canalha, mesmo sem saber, estava ficando velho. Duas cores não cabiam mais em um sapato. Suíças estavam por fora. E o cabelo delineado milimetricamente para faturar todas as menininhas da praça então? Nem se fala.
O Canalha estava datado. Virou um holograma do passado, de um tempo que só ele achava que ainda existia.
Mas ele continuava a desfilar sua gola alta e seu desodorante de spray pela calçada amarelada. E, apesar de envelhecido, o Canalha continuava atraindo olhares fêmeos. Passou na sorveteria, escolheu o de abacaxi. Entrou na banca, pegou a revista da semana. Parou para limpar os óculos de aro dourado quando viu, na sua frente... Não, não a mulher da sua vida. Apenas um brechó.
Ao entrar, foi atendido por uma mulher do tempo dele, que não devia receber ninguém há pelo menos uma geração. Mas o jargão comerciário ainda falava mais alto:
- Essa daí tá saindo muito, né? Pessoal tá usando aí.
- Vou levar e quero também essas pulseiras grandes aqui.
O Canalha esboçou um sorriso, pagou os vinténs pelas pulseiras coloridas e a camisa de canalha que comprara e voltou satisfeito para casa - seu mundo ainda existia, seu guarda-roupas ainda estava cheio de camisas estampadas e desbotadas, correntes, pulseiras e anéis dourados e prateados, gel Gozzano e pentes finos (sim, ele guardava tudo no mesmo armário - o "armário do abatedouro", chamavam os puxa-sacos do Canalha).
No caminho de volta para casa, viu a Moça Bonita conversando com suas plantas no jardim. Era a única mulher da vila que via no Canalha algo além de um canalha. Mesmo assim, a Moça Bonita, que não é boba, nunca se meteu com ele. O Canalha, então, insistente como sempre, arrancou uns girassóis do jardim do Namoradão, um rapaz fiel a sua amada, mas um tanto bobo, e os deu junto com as pulseiras coloridas para a Moça Bonita.
Ela agradeceu
- Obrigada.
Mas disse que não podia sair com o Canalha
- Mas não posso sair com você.
Porque ele a magoaria
- Porque você me magoaria.
Sim, as palavras precisam ser repetidas. Porque o Canalha as martelou na cabeça o resto do dia.
Deixou a Moça Bonita conversando com as plantas em seu casebre vermelho e voltou para casa, consciente de que, agora sim, havia visto a mulher de sua vida (embora ele não saiba direito o que é isso e conheça apenas mulheres da vida). Caminhou ainda mais confiante, quase pedante, mas não deixava mais seu ego atrapalhar. "Ego é um animal que deve ser deixado em casa", ele ouvia de seus mestres da velha guarda.
Chegando em casa, Magau o esperava para a caça que eles haviam programado há muito. "Hoje é a desforra. Vão estar todas lá, você vai dar a volta no alfabeto e voltar esfolado para casa".
Mas o Canalha, embora achando que não, estava velho.
